Egipto | Quando o turismo usurpa a inocência infantil

Memórias de uma armadilha,

Assuão
Março 2018

Por esta altura, já o Egipto os havia acolhido há quase uma semana. Os seus ritmos já se coadunavam com o ritmo dos locais, a intensidade dos odores havia-se tornado cómoda e habitual e o frenesim turístico, recorrente em cada esquina, era cada vez mais translúcido aos seus olhos.

Por estradas ainda desertas de gente e repletas de solidão, o sol abrasador fugia na linha do horizonte, que o Saara dominava, à medida que se ouvia a agitação do Nilo nas escadarias que desaguavam nas suas águas. Crescia a confiança em Issam, um intemporal habitante de Assuão, de quem, aleatoriamente, haviam aceite a “boleia”1 entre pontos distantes. 

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Cenário de uma das margens do Nilo em Assuão (esta fotografia é da autoria do meu pai)

Era a brisa mais fresca da noite que chamava os aldeões para as ruas e, à chegada ao pequeno vilarejo, as cores vibrantes e carregadas assaltavam-lhes a atenção. O azul celeste das paredes perpetuava-se na rua. Pelos trajes. Pelas tradições e recordações. Pelo céu de fim de dia. Issam guiava-os ao centro da aldeia. E crentes na autenticidade da experiência, embalavam na viagem2.

Assuao
Após cruzar o Nilo para a outra margem

Entreaberta, a rústica porta de entrada de uma casa local convidava-os a entrar, em sintonia com duas pequenas meninas, de cinco e dois anos de idade, que lhes acenavam hospitalidade. A multiplicidade de cores decorativas contava histórias de séculos, os artefactos, cuidadosamente expostos, também e a vivacidade das crianças acolhia os convidados no seio da sua família.

Às tradicionais saudações seguiam-se indagações. Eram curiosidades de mundos distantes. Mas a hospitalidade, acima de tudo, toldava-lhes as acções, os gestos, as palavras e os olhares. E eram exímios. Irrequietas por natureza, as irmãs também saltitavam pelos corredores esguios da casa que os guiavam ao coração do lar.

Issam intermediava a conversa entre os nativos e Migs e companhia. Sentavam-se. Como bons anfitriões, segundo ditam as normas locais, serviam-lhes um chá, cuja fresca temperatura ajudava a suportar o bafo húmido que provinha do tecto desfalcado. Ali, a chuva não seria uma visita comum, pelo que o chá era a solução ideal para tamanho “problema”.

AldeiaNubia
A principal artéria do vilarejo

Reféns das cores que palpitavam de canto em canto, os olhos de Migs percorriam as histórias contadas pelos pincéis que haviam colorido as paredes. Este era um país repleto de História. Porém, algumas estórias correntes suplantavam todo o vasto leque de motivos para o visitar. Momentaneamente, as pequenas meninas assaltavam-lhe a atenção.  A mais nova rebolava e gatinhava pelo chão. Apesar dos dois anos de vida, suportar o peso do corpo em pé revelava-se ainda uma tremenda chatice. Mas a mais velha, perspicaz, cambaleava entre os visitantes, procurando maior atenção para si.

Quer por ser considerada época baixa, quer pela insegurança que nos últimos anos havia assombrado o Egipto, Migs via muito pouco turismo, dito, ocidentalizado. Mas ali, onde se encontrava, não via mesmo ninguém. E talvez por esse motivo, acreditasse que atingira o clímax da experiência mais crua no país.

Eis senão que a mais velha das irmãs, mais desinibida ao fim de alguns minutos, se sentava ao seu lado. Olhava-o nos olhos, perante os olhares atentos do seu pai e de Issam. Ria-se. E num surpreendente inglês, ainda mais impróprio para a sua idade, dirigia-lhe um “Tourist, one dollar. One dollar!”. Subitamente, tornara-se demasiado óbvio para Migs que, outrora, aquele lugar havia sido um portal de hordas de turistas, que afugentados pelo aparente clima de insegurança, haviam também deixado esta e tantas outras famílias periclitantes, na “corda bamba”. Contudo, não era esse o principal motivo que o deixara pregado ao lugar. Esta era uma menina de apenas cinco anos que desconhecia qualquer rumo de vida, até ao momento, à excepção de “extorquir” os visitantes. E ser essa, aos cinco anos de vida, a sua maior tarefa e preocupação era, para Migs, algo penoso de assistir.

AssuaoMenina
Migs e a pequena menina, que se via no ecrã do telemóvel

Enquanto, a mais nova das crianças seguia o seu caminho, empoleirada entre dois bancos, alegre e indiferente ao seu redor, Migs chamava, então, a irmã que perseguia o seu dólar. Convidava-a a sentar-se ao seu lado e com o pouco que tinha à sua disposição brincava com a pequena menina. O telemóvel tornou-se, rapidamente, um foco de atenção maior, sobretudo, quando, ao deslizar no ecrã com os seus dedos, a menina descobria que se conseguia ver “ao espelho”. A sua expressão, cómica para os que assistiam, era um misto de espanto e terror. Mas pela primeira vez, naquela tarde, deixava cair a “rígida máscara de firmeza e valentia” instituída por hábitos antigos, para se mostrar sorridente, brincalhona e feliz. Para ser criança.

E ao fim de um par de minutos, eram também traços de espanto e terror que se desenhavam rosto de Migs, que saindo pela antiga porta de madeira, entrava num “pequeno grande bazar” nocturno. Os minutos haviam sido contados por um tempo mais rápido do que pensavam, mas o espanto e terror davam, lentamente, azo à crença de que os efeitos do turismo massivo desencadeavam efeitos nocivos não só nos locais físicos, como também nos seus habitantes, especialmente, nas mais inocentes e indefesas crianças. Independentemente da condição social em que vivam, os primeiros instintos de uma criança daquela idade, conduzem-nas a brincadeiras, ao invés destas duas, reféns de uma “obrigação laboral”.

AldeiaCamelo
O último camelo da longa fila que cruzou a estrada

Meia dúzia de grandes camelos, aperaltados com trajes locais, caminhavam, sozinhos, a par e passo com os aldeões que aproveitavam as primeiras brisas mais frescas da noite. Issam sabia que os havia conduzido a uma armadilha e por isso, dava-lhes mais espaço antes do regresso a Assuão.

M I G S

1. Em relatos anteriores, também no Egipto, já referi que os táxis oficiais deverão ter uma faixa cor-de-laranja na matrícula do veículo. Assim, denomino de “boleias” todas as deslocações noutros veículos, que embora pagas, não são serviços licenciados para esse mesmo efeito.

2. Recordo que, por esta altura, já tínhamos tido uma excelente experiência com este mesmo princípio das boleias (com Mohammad, no Cairo – lê AQUI e AQUI essa história), na expectativa de ver onde nos levavam os locais.

Algumas informações práticas relacionadas com esta história

  • Esta aldeia situa-se na margem oposta à cidade de Assuão e a alguns quilómetros a sul da mesma cidade. Segundo os habitantes locais, este será um exemplar autêntico de uma antiga aldeia Núbia. Contudo, face à minha experiência, estou convicto de que se terá alterado e perdido alguma da sua essência, fruto das “inundações” de turistas que, maioritariamente, desembarcam em Assuão, no final do itinerário de cruzeiro pelo Nilo.
  • O Issam acompanhou-nos ao longo de toda a nossa estadia em Assuão. Embora nos tenha tentado enganar de uma ou outra forma, inclusivamente tentando, no final, alterar o preço que nos cobrou das diversas boleias, foi sempre cordial e nunca foi persistente quando percebia que nos estávamos a aperceber das suas artimanhas. Dito isto e para que fique claro, se voltasse a Assuão, voltaria a contar com ele.
  • Dada a distância temporal para esta história (mais de dois anos), publico uma fotografia da menina em questão, pois nesta faixa etária, as feições alteram-se o suficiente, para que não seja imediatamente reconhecida nos dias de hoje.

Gostaste da aventura e queres saber mais sobre o destino? Clica AQUI para mais informações sobre o Egipto!

21 thoughts on “Egipto | Quando o turismo usurpa a inocência infantil

  1. Tudo o que envolva crianças são sempre situações complicadas, porque ora temos pena, ora sabemos que pode ser armadilha… De qualquer forma, bela história que tens para contar.

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    1. É verdade, João. São realidades tristes, mas que precisamente por não sabermos se são genuínas ou “encenadas”, acabamos, muitas vezes a alimentar a parte “má” da questão… Muito obrigado pela visita e pelo comentário.

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  2. Mais uma experiência que deixou marcas no Miguel, como tantas que tem partilhado connosco.
    O “verso e o reverso” estão em todo o lado e em tudo na vida, entrando muitas vezes em choque com os nossos idealismos. Nada é apenas aquilo que parece ser. Há sempre um outro lado, seja mais evidente ou ainda ténue. E assim, lidando com as circunstâncias envolventes, as crianças (e nós, durante toda a vida!), vamos crescer, aprendendo a viver… e a sobreviver!

    Será que é este ano que vamos ter uma história entre fronteiras?

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    1. “Nada é aquilo que parece ser”, conseguiu resumir tão bem esta história numa frase, Dulce. Muito obrigado por mais uma vez partilhar as suas perspectivas depois da leitura. Quem me lê e comenta posteriormente, como a Dulce, ajuda a enriquecer tanto o conteúdo!
      A história “dentro de portas” está certamente para breve! 🙂

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  3. Olá Miguel,
    Confesso-te que quando li o titulo do teu post fiquei um pouco apreensiva. O Egito é um dos países que tenho mais curiosidade em visitar (provavelmente um dos primeiros que quis visitar mas que, ainda, não foi possível). Ao ver o tema no titulo, confesso que fiquei assustada com o que poderia vir.

    Infelizmente, crianças que não vivem como crianças e procedem nesta situação, são inúmeras, o turismo deixa muitas marcas em certos países.
    Fizeste-me recordar de uma situação que se passou comigo numa viagem à Tunísia, em Hammamet fui abordada por uma criança que nem falar e andar direito sabia, mas que já me queria vender um pacote de lenços. Para meu espanto, olhei em volta e a sua mãe estava a poucos metros a ver e apoiar a situação. É, deixa um pouco o coração destroçado, ver estas realidades tão diferentes das nossas.

    Contudo, apesar do assunto tratado ser doloroso, é mais um texto magnifico teu, mais uma viagem, mais uma problemática encontrada e abordada. Um conselho e experiência deixado, um registo de uma história.

    Um abraço, e obrigado.
    😉 Uma boa semana.

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    1. Olá Irina! Tenho de concordar que o título está ligeiramente sensacionalista.
      Pois, na verdade, estes países do Norte de África têm algumas semelhanças neste aspecto e o curioso é que é muito nisto que se notam as grandes diferenças entre os povos árabes do Médio Oriente e do Norte de África.
      Vai descansada ao Egipto. Os pontos positivos são substancialmente mais fortes do que os negativos.
      Obrigado pela visita e pela presença sempre assídua!
      Beijinho e boa semana! 🙂

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      1. Ora bem… continuarei a sonhar com o dia que lá irei…
        Ia-te fazer uma pergunta. Por acaso já alguma vez foste a Marrocos, mais precisamente Marraquexe ou Fez, a outra era se tinhas a algum tipo de experiência com o deserto.
        Ando aqui a ponderar a minha próxima viagem ser um pouco mais “wild” e ir a Marrocos, visitar povos berber e fazer alguma experiência no deserto. Sou fascinada com o deserto vai-se lá saber porquê…
        Beijo e boa semana.

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      2. Não conheço nada em Marrocos ainda. Quanto a experiências com deserto tenho várias e, na minha opinião, o mais arrebatador onde estive até hoje é o que foge mais à ideia das dunas de areia a perder de vista: o Wadi Rum na Jordânia, que se estende pela Arábia Saudita, onde também estive já no início deste ano. Mas os povos berber circunscrevem-se ao Norte de África, onde tirando o Egipto, não conheço nada.
        De qualquer forma, pelo que vejo, tenho uma óptima impressão de Marrocos enquanto destino. Por isso aproveita! 🙂

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    1. Muito obrigado pelo comentário e pela presença constante! O Egipto é, sem dúvida, um destino magnífico. Vale a pena visitar, embora a minha visão seja de um país numa altura em que o turismo estava em baixo e isso permitiu-me contactar mais com locais e ter experiências diferentes.
      Abraço!

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    1. Olá! Antes de mais, seja bem-vindo. Obrigado pela visita e pelo comentário. O Egipto é realmente um país repleto de histórias e paisagens fantásticas! Tenho a certeza que tem óptimas recordações dessa viagem.
      Um excelente dia também para si.

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