Taiwan | Porque as aparências iludem

Memórias de uma última viagem,

De Taipé a Taichung,
Dezembro 2018

Aquela azáfama matinal, presa naquela escuridão da plataforma e na frieza desconhecida das paredes, imbuía Migs no espírito da hora de ponta de uma metrópole daquelas proporções. Os comunicados sucediam-se e os encontrões “sociais” também. O comboio, imaculadamente branco, iluminava o túnel que o levaria ao próximo destino.

A chuva intensificava-se. Caíam pingos menos leves. Menos suaves. Criavam-se pequenos caminhos de água que corriam pelos vidros da carruagem, levados pelo embalo da velocidade do comboio. No horizonte, a linha de arranha-céus de Taipé perdia-se no misto de nuvens e poluição, num abraço, quase diário, à cidade.

Taipei_Main_Station
A bilheteira da principal estação ferroviária de Taipé (Taipei Main Station)

Entre o pontilhado de gotas de água, Migs via a cidade que deixava, para a memória recordar, enquanto reflectia sobre as últimas semanas. Taiwan havia-lhe despertado uma nostálgica sensação do fervilhar cosmopolita do Sudeste Asiático, dez anos depois do esplendor da Tailândia. E era curioso, sobretudo, porque Taiwan não tinha sido um desejo arrebatador. Porventura, uma consequência de um impulso a cabeça quente.

Seriam aqueles carris que o encaminhariam à última paragem, Taichung. Eram percursos sinuosos e lentos, trespassando os subúrbios infindáveis de Taipé. A azáfama matinal repartia-se pelas múltiplas entradas e saídas, embarques e desembarques, partidas e chegadas. A organização não era perfeita. Longe disso. Muitos andavam “à boleia” e, entre a espada e a parede, num ápice, desciam os vagões até que chegassem ao porto de abrigo mais próximo: a paragem seguinte. À parte de um par de “Nihao”1 ou “Xie-xie”2, tudo o que se ouvia era chinês. Literalmente.

Taipei_Skyline
skyline de Taipé, fortemente marcado pela presença do edifício Taipei 101, com 509 metros, outrora o prédio mais alto do mundo (2004-2009)

Pisadelas à parte, o ambiente envolvia-o no espírito quotidiano de algures entre Taoyuan e Hsinchu. Vénias, desculpas e pedidos veementes de licença eram lei naqueles escassos frenéticos minutos. Parados em Hsinchu, embarcavam o silêncio e a tranquilidade, de mãos dadas com Jiayi3.  As galochas, pelos joelhos, sacudiam as gotas lamacentas pelo chão. O rasto pintado no chão da carruagem era inequívoco. Na próxima hora e meia sentar-se-ia no lugar 38, encostada à janela pela qual Migs se ia despedindo da formosa ilha.

Sem recorrer a qualquer ajuda, encaixava os seus pertences nos compartimentos e bolsas que encontrava. Já no seu assento, mas ainda em pé, fazia os últimos ajustes para que o conforto da viagem fosse tal qual havia planeado. Ao sentar-se, com o olhar em Migs e de tom desconfiado, soava o primeiro toque personalizado do telemóvel. A chinfrineira, repleta de sons estridentes, ecoava pelos vagões seguintes, denotando o desconforto de muitos passageiros. Do mesmo modo, falava abertamente, com um volume, excepcionalmente, entendido por todos os que estivessem de viagem. A inesperada e cómica situação, contudo, revelava-se um descontraído momento – e passatempo – para Migs, que contendo um sorriso matreiro, abstraía-se dos minutos que voavam.

A sua característica pressa, levava a que a chamada não durasse mais do que um par de minutos. Por essa altura, a viagem fazia-se a um ritmo elevado, permitindo escutar o nítido e suave tinir dos varões de metal misturarem-se nos ruídos dos plásticos abertos, das solas caminhantes e das páginas de palavras já lidas, até que uma segunda chamada persistia incomodar Jiayi. Por outro lado, a sua aparente timidez perante Migs, ia-se, lentamente, esmurecendo, mas eis que a nova chamada se encarregava de apressar o processo.

O olhar de esguelha e o ar cabisbaixo abriam-lhe um sorriso no rosto, ao qual se sucedia uma breve vénia, pedindo perdão pelo jeito desengonçado com que falava ao telemóvel, ainda antecipadamente. Num curto instante, confirmava-se que as conversas eram tão rápidas quanto Jiayi quisesse, afinal, dizia umas meras palavras e desligava a chamada. A Migs pareciam-lhe palavras duras, quase de ordem. O idioma sempre lhe havia parecido autoritário, pelo que não percebendo o seu sentido, ter-se-ia de ficar somente com aquela ideia, sem qualquer certeza. Porém, via-se impossibilitado de comunicar verbalmente com Jiayi, podendo esclarecer todas as dúvidas que lhe perduravam no pensamento.

Train_Taiwan
O interior de um comboio regional em Taiwan

Por seu turno, os gestos também falam. E, diga-se, muito mais do que o próprio Migs havia pensado. Os traços mais simpáticos conquistavam terreno na original face carrancuda da sua vizinha de bordo e esboçava-lhe sorrisos mais frequentes, coordenados com acenos em múltiplas ocasiões.

Taichung aproximava-se e, ainda que a largos quilómetros de distância, viam-se-lhe os recortes da paisagem urbana sobressair. O aproximar da hora de almoço obrigava muitos dos passageiros a deslocarem-se no interior do comboio, rumo ao bar de bordo ou na direcção dos seus pertences, onde conservavam as marmitas para mais um dia de trabalho. Jiayi não era excepção. Sentada, e auxiliada por Migs, inclinava-se para alcançar a sua pequena mochila vermelha. Dois pequenos recipientes plásticos, ainda fumegavam os últimos suspiros de ar quente no seu interior. Da mesma forma atabalhoada com que, até então, havia caracterizado toda a sua conduta, rapava o almoço, deliciada, em poucos quilómetros de caminho.

E aí, reparou que Migs não havia comido. Encostando-lhe um toque ligeiro no braço, apontava para o interior do recipiente vazio. Pensando que lhe estivesse a oferecer comida, Migs agradecia-lhe, dentro do leque de gestos que tentava, desajeitadamente, desenhar. Simultaneamente, tentava explicar que tinha comido ainda em Taipé, pouco antes de subir a bordo. Sem meias medidas, Jiayi abriu uma laranja. O cheiro intenso da sua acidez adocicada espalhava-se pelos bancos da frente e de trás. Embora chinês, Migs havia entendido um claro e perceptível «Toma lá!».

TaichungPark
Um parque em Taichung

E assim, no quarto de hora restante, conversaram, sem se entenderem, mas na certeza de que aquela viagem não seria esquecida por nenhum dos dois. Na estação de Taichung, ainda que não soubesse dizer um simples “adeus” em chinês, Jiayi antecipava-se e descortinava um final «Xie-xie». Afinal, as aparências iludem mesmo! 

M I G S

P.S. Nenhuma das fotografias que acompanham este texto foram tiradas no dia em que se conta a história. Estive sem bateria na máquina e nunca tirei o telemóvel do bolso.

1. Nihao é uma expressão de saudação em chinês, correspondendo a “Olá” em português.
2. Xie-xie é uma expressão de agradecimento em chinês, correspondendo a “Obrigado” em português.
3. Como a comunicação verbal era realmente impossível, nunca cheguei a saber o nome real da senhora que esteve sentada ao meu lado durante esta viagem, tendo protagonizado esta história, pelo que Jiayi é um nome fictício.

Algumas informações práticas relacionadas com a história

  • O comboio é o meio de transporte mais eficaz para deslocações internas em Taiwan, sendo, na sua maioria, modernizado e com ligações a praticamente todos os pontos de interesse na ilha. Existem comboios de alta velocidade, regionais e urbanos. Clica aqui para acederes ao site oficial da Taiwan Railways Administration.
  • Esta viagem entre Taipé e Taichung teve a duração aproximada de 2h15m, uma vez que não recorri ao sistema de comboios de alta velocidade.
  • A ilha de Taiwan é dividida, no centro, por uma grande cordilheira, cujas montanhas atingem quase os 4000 metros de altitude. Assim, as partes Ocidental e Oriental da ilha são muito distintas, sendo a parte Ocidental fortemente urbanizada e a Oriental mais verdejantes, natural e, em muitas zonas, intacta.

Gostaste da aventura e queres saber mais sobre o destino? Clica AQUI para mais informações sobre Taiwan!

15 thoughts on “Taiwan | Porque as aparências iludem

  1. Taiwan está com poucos casos da pandemia. Não sei exatamente o motivo, tlvz a velocidade com q reagiram, ou o povo já tenha o costume de usar máscaras, gel, etc.
    Sinto sempre uma certa revolta com a China. Na verdade, tlvz não seja revolta, mas distanciamento. Vc percebeu algo nesse sentido?

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    1. Olá! Estas questões de soberania/independência de territórios são sempre controversas porque existem pontos a favor dos dois lados.
      No caso de Taiwan, ainda assim, tudo funciona como se fosse um país independente (é importante não esquecer que o nome oficial de Taiwan é República da China – ROC). Têm governo próprio, fazem leis próprias, têm passaporte próprio, têm moeda própria, entre outros aspectos. Concordo mais que seja distanciamento do que revolta – nos anos 50, 60, 70, essa revolta de facto existia e o sentimento pró-independência era acompanhado pela maioria da comunidade internacional. Contudo, quando a China (República Popular da China) ganhou mais poder no cenário político-económico mundial, a comunidade internacional passou a estabelecer mais contactos diplomáticos com a China (PRC) e esqueceram Taiwan.
      Em resumo, acho que o tempo foi silenciando o desejo de independência de Taiwan, bem como a sua alegada legitimidade para o ser. Certamente que muitos Taiwaneses desejam a independência – a prova disso é que a líder do governo é pró-autonomia – mas já há muitos outros factores a falar mais alto…
      Quando lá estive, senti isso, em particular, quando visitei o memorial de Chiang Kai-shek, o “pai” de Taiwan e um dos maiores opositores da República Popular da China. Se puder, veja um pouco mais sobre a História do século XX, em particular, a parte da Guerra Civil Chinesa, para entender melhor esta questão 🙂

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  2. Quando existe vontade de partilha, realmente as barreiras não existem.
    Mesmo que as palavras sejam completamente secundárias, como se percebe na situação, o olhar e o gesto substituem-nas de tal forma que as emoções nascem com naturalidade.
    Este post é fruto dessa comunicação gestual, desses detalhes que ficarem para sempre guardados em lugares quase opostos do mundo.
    Estou certa que sempre que ao olfacto do Miguel chega o aroma de uma laranja se lembrará deste episódio. Será?
    Obrigada pela partilha!

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    1. Olá Dulce! Obrigado pela leitura e pelo comentário (sempre tão certeiro e pertinente).
      É isso mesmo, a barreira linguística não é assim tão intransponível quanto, por vezes, parece. Este é realmente um dos momentos que guardo com mais carinho desta viagem e traduz muito daquilo que percebi serem os habitantes de Taiwan – extremamente simpáticos, hospitaleiros e solidários.
      Curiosamente, não são laranjas que me recordam este dia, mas sim andar de comboio 🙂

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  3. Eu tenho que reafirmar isto Miguel, o quanto gosto de ler os teus posts. Não os sinto como um post mas sim como uma viagem partilhada, é possível quase que sentir o que tu descreves. Só te tenho a dar os parabéns por me levares numa viagem de comboio tão fascinante e diferente culturalmente do que estou habituada.
    Adorei.

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    1. Muito obrigado, Irina! Eu é que já não tenho palavras para agradecer a tua presença e apoio constantes por aqui 🙂
      Acho que esta história tem uma pequena grande diferença das outras. Não houve um objecto – fosse a máquina, ou o telemóvel – que me distraísse. Por isso acho que me lembro tão bem de todos os detalhes!
      E claro, se algum dia se proporcionar a hipótese de visitares Taiwan, só te posso dizer para ires. Certamente que trarás estas histórias para contar através da tua lente e ponto de vista! Beijinho!

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      1. O meu ponto de vista não é tão pessoal, tu tocas nos sentidos quando escreves e isso é genial.

        Sim, o facto de não termos aparelhos para distrair faz-nos sentir muito mais o que estamos a passar. Ainda bem que não houve esse factor, adorei a viagem.

        Vou-te mandar um convite para o meu outro blogue, lá, tenho poucas… vá, 2 descrições de viagens. Quando volta e meia me bate as recordações e quero reviver de novo momentos. Tenho destas coisas… desaparece um blogue, aparecem dois (multiplico-me :)).

        Fico à espera do próximo post, para viajar mais um pouco contigo e conhecer as pessoas fantásticas que vais comunicando, gestualmente ou através de palavras.

        Um abraço 😉

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    1. Muito obrigado pelas palavras, Mariel! Fico contente por ter estes testemunhos de que consigo transportar quem me lê até ao dia da acção 🙂
      Abraço!

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  4. Fantástico! Que texto! “Estive” na história com este teu texto!
    Imaginei como será viajar até um local como este. 🙂

    Só fiquei curioso com a história do telemóvel… As chamadas no interior do comboio devem ser vistas como desrespeito para com os outros (isto pelo facto de mencionares que duram poucos minutos). A ser isso, mostra aquilo a que a cultura oriental já tem enraizada na população, pois vemos também (tal como mencionado num dos comentários) a forma como lidaram com este dito coronavírus. 🙂

    PS:
    O meu novo blogue já está com novo design, domínio. Juntei os dois que tinha (Paranóias e Nuno França Photography) para ser mais fácil.

    Deixo abaixo o link. Ainda está numa fase de algumas melhorias, mas já funcional. 🙂

    http://nunofranca.pt

    Abraço,
    Nuno

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    1. Olá Nuno! Que bom ler essas palavras!
      Sim, na maioria destes países, pelo menos no Japão, Coreia do Sul e Taiwan (onde estive), é considerado falta de respeito falar ao telemóvel ou mesmo com outras pessoas dentro das carruagens, em particular quando vão sobrelotadas. São povos com costumes muito enraizados, como dizes.
      Vou espreitar a nova cara do blogue, então! 😉
      Abraço!

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      1. Incrível! Quando vejo/oiço este tipo de experiências relacionadas com os orientais, fico surpreendido pela falta de educação que nós, ocidentais, ainda temos perante este tipo de situações e não só… 🙂
        Continua a escrever assim!! É um prazer enorme ler o teu trabalho.

        Obrigado, espero que gostes!

        Abraço! 😀

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      2. Sim, em determinados casos têm sociedades mais evoluídas que as nossas, no que toca, particularmente, ao respeito e consciência do lugar que cada pessoa ocupa no funcionamento da sociedade. Mas, atenção, há outros aspectos que contrastam bastante com esta ideia e que também estão enraizados por lá. Não há sociedades perfeitas, por isso é que todos têm algo a aprender com os outros 🙂
        Quanto ao blogue, está bastante intuitivo, simples e apelativo! Parabéns pela renovação!

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      3. Claro, nada é perfeito neste mundo. 🙂
        Estamos sempre a aprender com os outros, espero.
        Muito obrigado! Fico contente por gostares! Ainda faltam alguns acertos, mas como ainda estou um pouco “verde” neste novo WordPress, estou ainda a explorar. 🙂

        Abraço

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