Tailândia | O despertar da realidade (Parte II)

Memórias dum mundo paralelo,

Banguecoque,
Agosto 2008

Continuação da parte I, que pode ser lida aqui.

O tuk tuk fintava os veículos, que surgiam na sua frente, sem critério explícito. Direita e esquerda afiguravam-se como opções viáveis, independentemente de poder significar incorrer em práticas perigosas e criminais. O condutor encarava o trânsito como se de um jogo se tratasse e embora a velocidade de ponta fosse nitidamente inferior, nem só em momentos de paragem a utilização das faixas de rodagem em sentido contrário lhe parecia ser boa ideia.

Era a primeira vez que Migs testemunhava tamanho “desrespeito” pelas regras de condução, daquela forma sistemática. Por ruelas mais escondidas, o percurso fazia-se de forma substancialmente mais rápida, mas abria-lhes a porta do não turístico de Banguecoque. Os templos majestosos, os ouros e dourados, o aspecto mais cuidado e restaurado e a imensidão de cores e luzes esbatiam-se no silêncio e sombra destes trilhos. O asfalto, mais gasto e esburacado, imbuía a viagem de algum desconforto. E apenas lentamente, os arranha-céus, que traçavam os desenhos das gigantes avenidas da cidade, aproximavam-se, deixando escassos clarões de luzes trespassarem para os bairros interiores.

Bangkok
Uma das movimentadas zonas de Bangkok. Esta fotografia não é da minha autoria, mas sim de um dos familiares com quem viajava.

Todos os sentidos despertavam ao compasso da chegada a Sukhumvit. De dia e de noite, as artérias desta área não se poupavam. A azáfama nocturna abafava o ritmo frenético diurno, os ruídos estridentes provenientes dos edifícios e da estrada confluíam, em uníssono. O hotel não estava a mais de um par de quarteirões e apesar da hora avançada, o elevado grau de humidade aliado ao ambiente poluído faziam-se sentir de forma mais intensa.

Já a pé, faltavam-lhes olhos para que absorvessem o que disparava nas suas direcções, desde os reclames luminosos às abordagens dos mais variados relações-públicas de restaurantes, bares, centros de jogos, entre outros. Aquela era, sem dúvida, uma das mais movimentadas avenidas da metrópole.

A poucas centenas de metros do hotel, situado numa rua perpendicular a uma das principais artérias de Banguecoque, o vermelho tornava-se, frequentemente, mais presente, irradiando dos diversos pisos de algumas dezenas de edifícios.

Em algumas ruas paralelas ao hotel, porém, os enormes edifícios davam lugar a casebres mais pequenos. Eram pisos térreos que se estendiam pelas traseiras da grande avenida. Eram o segredo não tão bem guardado quer da capital tailandesa, quer do país de forma geral. Estes bairros clandestinos, “disfarçados” na penumbra das cosmopolitas avenidas e conhecidos da prática criminal rotulada ao sudeste asiático, eram tão movimentados por nativos como por estrangeiros.

Tuk Tuk Bangkok
A aventura de tuk-tuk pelas grandes avenidas da capital tailandesa.

Porta a porta, o motor da economia paralela era a prostituição. Nunca “não julgar um livro pela capa” havia feito tanto sentido. A Tailândia, do que se via até então, reflectia essa lógica nos varandins e vidros espelhados daqueles caminhos. A escolha era arbitrária. De ambos os lados. E mesmo a idade não era factor limitativo.

Era, sobretudo, este factor que mais sobressaía. Se por um lado, o próprio Migs e os seus eternos compinchas de viagem1 iam sendo abordados na passagem para o hotel, do outro lado, em diversas ocasiões, as recrutadoras eram adolescentes, que nem só a eles se dirigiam.

Banguecoque provava ser um ponto de partida impactante para uma experiência memorável que se avizinhava. As primeiras impressões chocavam e abalavam o casulo de segurança em que habitavam, à luz dos valores e cultura europeia e ocidental.

E para sempre aprendiam que, seriam as ruas traseiras a guardar as histórias e segredos que os olhos do mundo menos vezes testemunham (ou preferem ignorar).

M I G S

1. À data da história, as idades não superavam os 14 anos.


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12 thoughts on “Tailândia | O despertar da realidade (Parte II)

    1. Obrigado pela visita e comentário! Já não haverá parte III, mas muitas histórias ainda virão 😉

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    1. Aprender a conduzir em Bangkok deve ser um processo interessante, sem dúvida! Mas também duvido que alguém não seja aprovado ahah!
      Não diria que revelam “o melhor”, mas sim a realidade mais pura dos sítios, que neste caso em particular não é boa, de todo.

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  1. Parece contraditório dizer que a Tailandia foi o país que mais gostei e detestei ao mesmo tempo, porque é como dizes tem 2 faces bem distintas. Por um lado os templos e os palácios magníficos, as praias paradisíacas uma natureza e cultura invejável mas depois… Um antro de crime mais ou menos disfarçado, a prostituição com ar de desumano (porque o é) o lixo e o cheiro nauseabundo por todo o lado e a quantidade de turismo absurdo, mas turismo do mau, de jovens adultos bebedos e arruaceiros, de musica psicadelica regada e bebidas contrafeitas e drogas mais manhosas ainda, acordar de manhã e ver as praias repletas de lixo e os mm bebedos desmaiados no areal…
    Mas ficar num hotel de luxo e não conhecer os recantos da Tailandia não era opção assim como não era de ver aquele espetaculo degradante… Voltarei? não sei…
    Adorei o post

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    1. Olá Luis! Antes de mais, obrigado pela visita e pelo comentário! Concordo plenamente.
      Ainda assim, do meu ponto de vista, gostava só de acrescentar que acredito que estas duas faces da moeda, que são completamente a antítese uma da outra, fazem com que a Tailândia tenha sido um país onde aprendi e cresci muito quer como viajante, quer como pessoa.
      É muito difícil de acreditar e gostar de certas coisas que se presenciam no momento (para não dizer mesmo impossível), mas penso que a longo prazo, apesar de se continuar a achar muitas coisas repugnantes, ficamos com a sensação de que em certa medida contribuíram para algo maior. No meu caso, que tinha apenas 13 anos, cresci inevitavelmente, e fez-me voltar com novos olhos e vontade de, pelo menos por palavras, deixar o meu testemunho e expor publicamente esse, como dizes, “antro de crime mais ou menos disfarçado”! Uma vez mais, muito obrigado pela tua reflexão! Abraço e boas viagens!

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  2. Lendo o conteúdo do post e dos comentários, aliás bastante complementares ao post, dá para perceber claramente que a Tailândia no geral e Bangkok em particular são locais de experiências fortes, seja para o corpo, seja para os sentidos e emoções. Mesmo que extremadas.
    Certamente que quando se é tão jovem como o Miguel era na altura, tal como eram os seus companheiros, uma viagem dessas marcará para toda a vida.
    Obrigada pela partilha!

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    1. Bom dia, Dulce!
      É verdade, a Tailândia oferece um conjunto de experiências fortes, às quais é impossível passar ao lado. Costumo dizer que despertei, mais a sério, para o mundo fantástico das viagens, precisamente com esta.
      Obrigado pela visita e pela reflexão! 🙂

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  3. boa tarde amigo!! estou me programando para ir até a Tailândia ano que vem. Que bom ter alguém aqui no wordpress pra se apoiar. Abraços

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