Uma década de mundo | 2010-2019

Certo.

Este é um artigo que foge ao modelo habitual das histórias que aqui publico. Contudo, trata-se de um balanço interessante do que as viagens desta década (que agora termina) me trouxeram e ensinaram. 

Nos últimos dez anos visitei vinte e seis países, sobretudo na Europa e Ásia – o único país visitado fora destes dois continentes foi o Egipto. Porém, não é atrás de uma mera soma de destinos que me foco nas viagens e é por esse motivo, que gosto particularmente de viver regressos – e também neste parâmetro, a quase finita década foi gratificante.

Vamos guardar as surpresas, os reencontros, as aventuras e as paixões para depois e começar pelo ponto menos positivo da década.

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A DESILUSÃO

As redes sociais e o excesso de turismo

Compreendo que este tanto possa ser um ponto de encontro de ideias como de confronto, mas não consigo deixar de ser honesto comigo próprio e evitar falar dele. Também não pretendo que este tópico seja visto como uma lição de moral! Longe disso. Esta é apenas a minha opinião.

Foi nesta década que as redes sociais se afirmaram não só como uma parte integrante da nossa vida, mas como uma extensão do próprio ser humano. E o mundo das viagens não é alheio às mudanças da sociedade. Milhares de milhões de pessoas publicam e partilham diariamente os seus gostos de forma pública. Tornou-se mais fácil de influenciar terceiros, mesmo sem que se conheçam.

Esta rede crescente de “influenciadores”“influenciados” levou a uma maior afluência de visitantes aos locais mais partilhados nas redes sociais. O problema é que esta teia de influências cresce de forma exponencial e em pouco tempo, certos locais tornam-se excessivamente turísticos. Basta olhar-se para os números de passageiros movimentados em determinados aeroportos para se perceber o que digo:

Tabela Aeroportos
Número de passageiros nos aeroportos em 2009 e 2018

Será que o problema é somente o facto de haver crescentes multidões nos mesmos locais? Não é bem isso. O foco é a transformação que essas enchentes provocam nos locais visitados. O fenómeno da globalização traz-nos uma homogeneização da sociedade e o turismo massificado é um acelerador que potencia esse “standard único”. Por cada McDonald’s ou Starbucks que nasce em Lisboa, no Porto, em Barcelona, Veneza e tantos outros, é um café local que desaparece. E é nesses cafés locais que se contam as histórias típicas e tradicionais, que se sentam os moradores dessas cidades. Respira-se a alma do local.

É certo que o turismo tem sido o motor de muitas economias locais e nacionais pelo mundo fora e tem contribuído para melhorar as vidas de muitas pessoas. Não o nego, nem desejo o oposto. Apenas questiono, qual o preço que queremos pagar? Queremos assim tanto uma homogeneização do mundo?

*Embora não esteja expresso no texto, obviamente que o surgimento e domínio do mercado de várias companhias aéreas low-cost, contribuíram para a situação actual em diversos sítios, sobretudo, do mercado europeu.

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O ACONTECIMENTO

A Primavera Árabe
Tahrir Square
Manifestação na Praça Tahrir no Cairo, uma das imagens mais icónicas da Primavera Árabe (a fotografia não é da minha autoria, reutilizada sob os direitos de autor Creative Commons ©)

Foi um início de década de convulsão social e violentas revoltas contra os regimes da maioria dos países árabes. As imagens de milhões de pessoas nas ruas, da Síria à Tunísia, correram o mundo e figuravam nas primeiras páginas dos jornais. Caíam regimes autoritários, nasciam outros. Disputam-se guerras sangrentas na Líbia e Síria. Assistiu-se ao nascimento do grupo terrorista mais temido do mundo, o Daesh, e ao seu declínio. 

A “Primavera Árabe”, nome pelo qual ficou conhecido o movimento, foi o acontecimento mais marcante do mundo nesta década, tendo concentrado as atenções mediáticas de todos os continentes e sido a razão de muitas acções políticas e diversas alianças políticas internacionais. Mas não só. Foi também o acontecimento que mais me marcou e que despertou em mim o interesse e curiosidade pelo Médio Oriente, região não visitada por mim, até 2016.

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A SURPRESA 

Omã
Omã
No deserto de Wahiba Sands

Sem nunca ter visitado o Médio Oriente até 2016, quando me aventurei pela primeira vez, juntei num mesmo roteiro em vinte dias, as cidades de Abu Dhabi e Dubai (nos Emirados Árabes Unidos) e Omã!

Porquê Omã? À partida, escolhi este país, essencialmente, por uma questão de logística. Com fronteira com os EAU iria perder menos tempo em deslocações, o que facilitaria a programação de roteiros e aproveitar o máximo tempo possível.

Depois, apercebi-me da herança cultural do país, historicamente associada a Portugal e à costa ocidental de África, e que fazem de Omã um melting-pot de culturas e tradições que culminam numa experiência autêntica e única no Médio Oriente.

Por fim, e sem esquecer a fantástica hospitalidade do povo omani, na lista de razões imperativas para visitar Omã tem de constar, obrigatoriamente, a diversidade paisagística arrebatadora do país. Desertos, praias e montanhas de beleza natural fascinante fazem de Omã, um destino impreterível no Médio Oriente! E tendo apostado nele como primeira porta de visita à região, posso dizer que, se hoje sou apaixonado pelo Médio Oriente, a culpa é de Omã!

*Para informações mais completas e histórias de viagem em Omã, clica aqui.

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O REENCONTRO

Roma
Roma_Navona
A Piazza Navona, um lugar de passagem obrigatória em Roma

Se estivéssemos a entrar em 2010, diria que a minha cidade preferida no mundo era Roma. Dez anos de viagens mais tarde, ainda não mudei de opinião. Foi em 2014, sete anos depois da primeira visita, que regressei à “cidade eterna”.

Roma é a alma da História. É onde as suas estórias ganham vida e isso sente-se nos caminhos da capital italiana. Roma é tradição e misticismo. Arte e crença. Cor e vida. De todos os locais que já visitei, é o que considero que tem menos hipóteses de desiludir. Faz-nos sentir parte da História, não só de Itália ou da Europa. Do mundo. 

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A AVENTURA

Coreia do Sul
Bukhansan
No topo do Parque Nacional de Bukhansan, com vista para a gigante metrópole de Seul

A Coreia do Sul foi a minha grande aventura nesta década. Nem a classifico bem como viagem, pois os meses em que lá vivi criaram uma rotina que não é, de todo, semelhante à rotina de viagem.

Fui em intercâmbio universitário em 2018 e escolhi a Coreia do Sul apenas porque era a hipótese disponível mais distante – física e culturalmente – de Portugal. Antes da partida, já conhecia o Japão e, por esse motivo, as comparações prévias eram inevitáveis. Desiludi-me nos primeiros dias, descobri a Coreia nos meses seguintes e acabei a chamar-lhe “casa” no fim.

Estou convicto que nos próximos tempos, quem sabe já na década prestes a começar, a Coreia do Sul estará nas “bocas do mundo” por motivos económicos, políticos e turísticos.

*Para informações mais completas e histórias de viagem na Coreia do Sul, clica aqui.

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A PAIXÃO

Islândia
Islandia
A cascata Seljalandsfoss, situada no sul da ilha

Dizer solstício de Verão, equivale a dizer “dia mais longo do ano”. E em 2015 celebrava-o justamente onde o dia não dava lugar à noite: na Islândia.

Por esta altura, a Islândia ainda não era um dos evidentes grandes highlights do turismo de aventura e natureza na Europa. De carro alugado, como manda a “obrigação” de quem visita o país, senti o verdadeiro significado da palavra “liberdade”.

Ao longo dos quilómetros de estrada e gravilha percorridos, a grande maioria do tempo não se via ninguém, nem mesmo nas grandes atracções como Skógafoss! Estava num mundo à parte e podia usufruir dele de forma exclusiva! Tinha descoberto o paraíso.

*Para informações mais completas e histórias de viagem na Islândia, clica aqui.

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Não sei o que a década vindoura trará. Mas não me incomoda não traçar planos a priori, nem estabelecer “prioridades”. Gosto de andar ao sabor do vento, ao ritmo de oportunidades que surjam, de preços imbatíveis e de repentinas descobertas apaixonantes.

Sinto, porém, que o Médio Oriente continuará a estar no meu horizonte. Descobri o “meu sítio”, aquele que me faz sentir mais vivo em todas as dimensões. Afinal, quem não gosta de se sentir “vivo”?

Aqui, no Migs Travel Tales, tentarei trazer mais conteúdo, de forma mais regular, sempre pautado pelos mesmos princípios que me conduziram até aqui. Trazer-vos histórias reais, torná-las mais próximas, apesar de distantes, e inspirar-vos a ir em busca do sítio que vos faz sentir mais vivos/as. Dir-me-ão vocês se o consegui!

Um excelente 2020!

Miguel

13 thoughts on “Uma década de mundo | 2010-2019

    1. É verdade Gil, foi uma década que me levou a sítios onde nunca tinha pensado ir! É andar mesmo ao sabor do vento!
      Que venha aí uma grande década para ti também, com muitas viagens. Obrigado pela visita e pelo comentário! Abraço!

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  1. Adorei a reflexão sobre essa questão controversa do turismo. Acredito que uma das formas de fugir dessa massificação de certos lugares seja buscar destinos pouco convencionais – e acho que Omã é um bom exemplo disso! (Ao menos para os brasileiros não é um local tão procurado)
    Ah, deixo aqui uma recomendação para a próxima década: visite o Brasil! 🙂

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    1. Olá Aline! Obrigado pela visita e pelo comentário. De facto, Omã ainda não é um destino muito divulgado, mas tem todas as condições para atrair cada vez mais um número maior de pessoas. O problema é que enfrenta a insegurança das pessoas em viajar para o Médio Oriente, o que não é uma visão nada real da maioria dos países!
      O Brasil está definitivamente nos planos para esta década! Há muitos sítios no país que quero visitar 🙂

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  2. Gostei imenso deste olhar do Miguel sobre a sua década e sobre as dinâmicas do mundo, seja na questão do turismo de massas, nas convulsões políticas ou nesse evidente vibrar com as energias do Médio Oriente, uma região tão longe da maioria de todos nós. Uma boa análise expressa através de um texto sensível.

    De todos os lugares…creio que para mim a Islândia também seria uma paixão!

    Desejo que em cada ano da próxima década cumpra um sonho ou um lugar. Aproveite a juventude, a energia e principalmente a disponibilidade que me parece ainda ter.
    Conheça o mundo, mas não esqueça este fabuloso país onde vivemos, cheio de recantos que nos preenchem. E há tantos ainda sem turistas a mais!
    Um abraço!

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    1. Muito obrigado pela presença assídua, Dulce.
      A Islândia é, de facto, um mundo único, à parte de tudo o que já vivi. Garanto-lhe que não me esqueço deste nosso cantinho 🙂
      Vamos ver o que a década reserva. Retribuo-lhe o desejo de um excelente ano e década!

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  3. Muito bem! Sabe sempre bem ler estas tuas publicações sinceras e cheias de paixão. Esta ainda mais curiosa em jeito de balanço.
    Eu fiz um balanço da década, mas sobre o “mundo das viagens”, e acho que tenho que fazer uma sobre as minhas viagens durante a década.

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    1. Olá Alberto! Muito obrigado pela visita e pelo comentário 🙂
      Esse prazer é recíproco, as suas aventuras pelo mundo são sempre fantásticas e surpreendentes! Cá estarei à espera para ler esse seu balanço da década. Certamente terá muitos destinos pouco expectáveis e comentários certeiros! Um abraço e um excelente ano!

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