Taiwan | O lado humano de Kaohsiung

Memórias das origens urbanas,

Kaohsiung,
Novembro 2018

O ferry partiria em breve. Os tons de fim de tarde começavam a tomar proporções significativamente maiores no céu, reflectindo-se nos edifícios espelhados que iluminavam as escuras ruas e becos do caos de Kaohsiung.

A baía, tranquila, reservava-lhe o último segredo, escondido à beira-mar. Com extensos braços de areia, Cijin abraçava o oceano e todos os que nessas águas, à deriva, navegavam. Era o primeiro porto-abrigo, o mais imediato centro civilizacional para quem, a léguas, avistava a esperança de terra firme. Mas era o seu ritmo peculiar, próprio de vilarejo piscatório e comunidade pequena, que fazia milhares embarcarem até si.

Vista de Kaohsiung
A vista para a cidade de Kaohsiung, desde o ferry que a liga a Cijin

Sentado nos bancos metálicos da embarcação, Migs contemplava a vista da metrópole disfarçada entre a poeira que assentava e a linha do horizonte, gradualmente mais ténue. À chegada a Cijin, o rumo era incerto. Seriam horas para vaguear, percorrer caminhos por descobrir, escutar as histórias dos becos traseiros e acompanhar o esgotar dos minutos embebido no coração frenético da ilha.

Era sob esses pressupostos que, aos primeiros passos, os esporádicos vestígios históricos daquele pedaço de terra sobressaíam. Impressionado com a diferença abismal que quinze minutos entre Cijin e Kaohsiung separavam, Migs procurava as ruas internas, fora das agitações turísticas das grandes avenidas que desaguavam no vasto areal.

O comércio local era, evidentemente, o sustento de centenas de famílias ali alojadas. Banca após banca, as cores das frutas e vegetais e a frescura dos odores dos peixes e marisco decoravam as lojas, que em simultâneo com os sorrisos dos seus comerciantes, cativavam os clientes, aproximando-os dos prédios mais rústicos do vilarejo. O convite para entrar era instantâneo a par e passo com descontos exorbitantes. Do outro lado da rua, chamavam com acenos mais entusiasmantes. Sentados em poltronas, que certamente tiravam de casa, apontavam para os produtos balbuciando uma meia dúzia de palavras incompreensíveis.  Este cenário sucedia-se pelas mais diversas ruas da ilha, equiparando o ambiente ao de qualquer outro lugar do Sudeste Asiático.

Cijin
Uma das muitas comerciantes de Cijin, minutos antes de abrir o seu estabelecimento

E era isso que Cijin representava, no mapa e na realidade. Um espaço intemporal, característico e genuíno, que reluzia o seu esplendor longe do par principal de artérias do vilarejo. Juntavam-se, ainda, os seus habitantes, que desvendavam os segredos da terra a Migs e aos que, do mesmo modo, se aventuravam pelos empedrados mais sombrios.

Por caminhos mais ou menos sinuosos, as portas das casas entreabertas permitiam-lhe adivinhar e imergir na vida mais privada dos poucos que lhe esboçavam sorrisos e olhares hesitantes. Afinal, olhando em redor, não se avistavam quaisquer turistas. Nem homens, mulheres ou crianças locais. Era possível ouvir o vento, que chamava a noite, resvalando nos toldos metálicos e os latidos dos cães que ecoavam nos becos menos convidativos. E dois turistas, aparentemente “perdidos”, algures, não seria o cenário que esperariam, certamente.

Uns metros adiante, e já com os passos ao ritmo dos últimos raios de sol, dirigindo-se ao coração de Cijin, Li encontrava-se com Migs, correndo atrás da bola que, saltitando entre as pedras de gravilha, seguia, afincadamente, rua fora. Parava aos pés de Migs, que ouvia os suspiros ofegantes do menino ficarem cada vez mais intensos e próximos. À troca de bola, sucinta e inexpressiva, sucedia-se um poderoso «xié-xié»1ordenado pela mãe do pequeno Li. Virava as costas e regressava ao descampado, pé ante pé, na direcção da mãe, que de orgulho no rosto, acompanhava-o com o olhar.

Ferry
O regresso a Kaohsiung, sob o olhar atento dos pequenos passageiros

Chegando ao cais, o sol reflectia na baía os tons avermelhados de fim de dia e, ao longe, as luzes que iluminavam os arranha-céus da cidade eram o foco dos passageiros debruçados no varandim da embarcação. Para trás ficavam os moradores mais genuínos, os cheiros mais característicos e as recordações mais vívidas, que num simples aceno devolviam a gratidão da visita.

Era esta a natureza mais crua de Kaohsiung, uma metrópole moderna e cosmopolita, cujas origens humildes e piscatórias se preservavam num trecho de areia, recheado de autenticidade, emoção e memórias. Uma ilha que, estando a meros metros da costa, se distanciava da cultura que emanava dos populosos aglomerados urbanos, onde cada um era somente um a mais.

M I G S

1. Xié-Xié é uma expressão chinesa de agradecimento;

Informações Práticas relacionadas com a história

  • Embarca-se no ferry para a ilha de Cijin, no terminal do porto de Gushan, desembarcando no centro de Cijin. O custo é de 15NT$, que convertido para euros não chega a 0,50€. O ferry parte a cada 5-10 minutos e a travessia não dura mais de 10 minutos.
  • Apesar do aspecto decrépito de algumas zonas de Cijin, a nível de segurança, nunca me senti minimamente ameaçado ou em situações de risco. A população local é muito afável e predisposta a ajudar.
  • Aconselho a visita num horário mais próximo do fim de tarde, uma vez que a grande maioria dos turistas embarcam de manhã ou nas primeiras horas da tarde.
  • A ilha é pequena e as distâncias são passíveis de serem efectuadas a pé. Há, contudo, possibilidades de aluguer de motas, bicicletas ou contratar serviços turísticos locais.

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9 thoughts on “Taiwan | O lado humano de Kaohsiung

    1. É verdade, mas mesmo assim, a ilha de Cijin já recebe vários visitantes diariamente, contudo limitam-se a ficar apenas nas principais ruas, entre o cais e a praia 🙂

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  1. Tão bom dar-nos a conhecer estes recantos longe das demandadas turísticas. Saber e compreender o espírito e tradições das gentes, como é o seu dia a dia, fora dos locais cheios de gente. A vivência humana.
    Parabéns pelo post Migs, como sempre, com toque muito humano e informativo.

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    1. Muito obrigado, Irina! São precisamente esses, dois dos grandes objectivos destas partilhas! Ainda bem que consigo transportar quem me lê para os locais 🙂

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