Tailândia | A alma de Koh Panyi

Memórias de descobertas,

Koh Panyi,
Agosto 2008

O sombrio cinzento do céu anunciava as habituais monções de Agosto em Koh Panyi. Em plena baía de Phang Nga, que se estende pelo sul da Tailândia, entre Phuket e Krabi, é frequente a sua dissociação com as idílicas paisagens da região. 

A bordo de uma embarcação que, navegando pelas águas de tons turquesa da baía, se dirigia a Koh Panyi, Migs ansiava pela chegada à ilha, enquanto se debatia com o impacto da lancha na ondulação tempestuosa.

Em variados aspectos, esta era uma ilha, no verdadeiro sentido da palavra, em território tailandês. De população maioritariamente muçulmana, no seio de uma nação predominantemente budista e na generalidade descendentes de imigrantes de diferentes localidades do sudeste asiático, os habitantes conservavam, à sua chegada, o que tão bem os caracteriza: um sorriso acolhedor.

Instintivamente, após ser dada autorização para desembarcar, Migs saltou, apoiando-se em estacas de madeira, que suportam o avanço da localidade pelo mar adentro. Os tons de cinzento que pairavam sob a ilha adensavam-se à medida que a tarde se desenrolava. Os ameaçadores trovões seguiam o ritmo dos corações que palpitavam entre tantos e Migs. Ao longe, entre becos e estacas, uma cúpula amarela erguia-se mais alta que todos os toldos e os minaretes que a acompanhavam não enganavam. Estavam em Koh Panyi.

Koh Panyi

Aos primeiros tímidos pingos de chuva davam-se os primeiros passos. De ar sereno, os pescadores rastreavam os visitantes individualmente, enquanto as curiosas crianças espreitavam pelas portas entreabertas das respectivas casas. Olhares profundos de mentes sãs que questionavam tal presença.

Pelo canto do olho, Migs reparava atentamente nos diferentes costumes. Inserido no contexto cultural budista, tipicamente tailândes, há um par de semanas, o contraste que observava era puro e intrigante. Não só uma, mas por diversas ocasiões, figuravam mulheres cobertas pelo véu islâmico, segurando as mãos das sorridentes e irrequietas crianças que se atreviam a brincar fora dos limites de casa. Por onde Migs passasse era recebido com genuínos cumprimentos.

Child Koh Panyi

Subitamente, pelas ruelas da aldeia ecoou a voz do mu’adhin¹ recitando a adhan²Portas de casa fecharam, crentes dirigiram-se rumo à mesquita e aulas pararam. O repentino silêncio dos becos trazia chuva intensa e contínua e o temporal que prometia chegar parecia cada vez mais próximo. De pé e abrigado por baixo de toldos, que apesar de tudo, não eram impermeáveis, Migs encarava algumas dezenas de alunos do lado de lá da inexistente porta de entrada da sala de aula. Um a um, passo após passo, entre risos e sussurros, levantavam-se e brincavam no exterior. Sorriam para as câmaras e prontamente viam o resultado.

Para os estudantes, não seria, certamente, o primeiro contacto com mundos exteriores. O quotidiano da ilha habituara-os a novas gentes. E, ainda assim, os contagiantes sorrisos espelhavam a genuinidade do povo e a alegria sobrepunha-se aos males mundanos. Por seu turno, a tenra idade de Migs não lhe fechara os olhos, como que filtrando o que não releva para uma criança. Fixava-se nas diferenças, sobretudo. Afinal, não distava assim tanto, em idade, dos meninos e meninas com quem partilhara aqueles minutos e era na simplicidade diária que as parecenças se esbatiam. Era o sol que lhes regia o dia e a coordenação dos ponteiros e tique-taques da pulsação ocidental era coisa raraAs atenções longínquas de sensações urbanas e os bolsos despidos de Nokias desenhavam-lhes um quotidiano contrastante com o de Migs. 

Leaving Koh Panyi

O mar agitava-se rugindo na ondulação que vibrava as estacas de madeira, colaborando com a dança de pingos que jorravam abruptamente do céu. O mundo ordenava-lhe o regresso, mas jamais o esquecimento. Foram lições de simplicidade. Foram olhos de felicidade. Foram, principalmente, almas de verdade.

Ao largo do horizonte, as escarpas verdes de Koh Panyi dissimulavam-se na nebulosidade que se instalara. O barco perdia-se pelo, ainda, infindável turquesa e os cabelos esvoaçavam à velocidade da lancha, num pensativo regresso à doca, donde haviam partido.

M I G S

1. No Islão, mu’adhin é a pessoa encarregada de anunciar em voz alta o momento de oração;
2. Adhan é a chamada para a oração, recitada pelo mu’adhin;

Informações Práticas sobre Koh Panyi

  • A aldeia flutuante de Koh Panyi está localizada na baía de Phang Nga, no Sul da Tailândia, entre a ilha de Phuket e a cidade costeira de Krabi.
  • A sua construção teve inicio nos últimos anos do século XVIII, quando uma minoria muçulmana, proveniente da Indonésia, se estabeleceu ali devido aos recursos naturais disponíveis, nomeadamente peixe.
  • Embora a actividade piscatória se mantenha na base do quotidiano dos habitantes de Koh Panyi, o sector do turismo adquiriu, nas últimas décadas, um importante estatuto para a economia local.
  • As excursões à ilha partem, principalmente, da ilha de Phuket, sendo efectuadas quer em lanchas rápidas, quer em embarcações mais pequenas.
  • Se planeia visitar a aldeia, lembre-se de respeitar os costumes e tradições islâmicas.

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10 thoughts on “Tailândia | A alma de Koh Panyi

    1. Que bom ler este elogio! Os países é que têm o mérito, eu só me deixo levar pela corrente para viver as experiências intensamente 🙂

      Liked by 2 people

    1. É mesmo um país fantástico! Obrigado pelas palavras que são, sem dúvida, motivadoras! Acabei por publicar a fotografia da criança, indo contra o que costumo fazer, apenas pela distância temporal ser considerável, porque não sou adepto de publicar fotografias de crianças tiradas recentemente, sem aprovação prévia.
      Abraço! 🙂

      Liked by 1 person

    1. Muito obrigado pela visita e pelo comentário! Seja bem-vinda a este espaço 🙂
      É um sítio muito interessante mesmo. Uma realidade diferente, mesmo dentro da própria Tailândia!

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